quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Morzin
Rotina de Operário
eu brinco de morto-vivo
carrego a canseira no sopro
descanso no ato não dito
Dia sim, dia não
é tudo um padrão que repito
antigo espiral contramão
carrosel de operário ancião
uma roda de raio infinito
Vida Noturna
suicídio diário
o éter sorver
conterce o horário
Desloca o lazer
me drena o mundo
carece meu ser
de uma noite defunto
domingo, 12 de setembro de 2010
Recreio
Incomodo-me de escrever às vezes, porque nessas horas a janela aqui do quarto muda totalmente de paisagem. É só pegar nas palavras que minha casa descola imediatamente do chão e fico à mercê do rumo que ela decidir, e o pé nem sente a jornada. É só a casa mesmo que se mexe, pois nessa hora eu me agarro na mesa e respiro fundo. No começo me deixava levar pelo medo e, então, as palavras sumiam do contexto fazendo cessar de uma vez o tremor. A situação evoluiu de forma silenciosa, e hoje creio que o silêncio facilita a fala, sendo assim, fico imóvel sem ranger a cadeira que é para ver se compenso o transtorno do recinto.
Algumas vezes é totalmente inocente. Eu começo a pensar em palavras e a rota já está traçada. Entra barata e peixe pela fechadura, jorra água duvidosa da lâmpada de leitura que nem precisa estar acesa porque na janela pisca uma aurora boreal que sempre me deixa pasmo. Verdes, marrons e quase azuis lindos piscando convulsivamente com o bater das persianas. Atrevido, às vezes chego a espiar lá fora com uma curiosidade muito intensa, mas que inevitavelmente dura pouco, pois termino por encontrar sempre a mesma coisa.
No começo só existe luzes mas termino por identificar, iluminado por três sóis se pondo simultâneamente, um parquinho de crianças. Lá têm bichos de pelúcia que brincam de brincar, fingindo que são inocentes e cantando e dançando as músicas de suas infâncias, mas há muito perderam a alegria infantil. São de pelúcia velha bem marcada com manchas de saliva. Minha saliva. É como se me olhassem com meus próprios olhos e pegassem emprestados minhas pernas e braços para me fazerem dançar também. Proponho-me a olhar de início, mas quando dou por mim já soltei das palavras e abraço esse conforto que, apesar de pequeno, é suficiente para me levar aonde quer que meu quarto voe.
Esse aconchego me leva então do quarto com seus animaizinhos de mentira e tantos cobertores. Tiro meus sapatos, me deito... completo.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Bailando
Sentado na tentativa de entrar em contato, os movimentos das arvores me negaram. Moviam-se com o vento a principio, mas depois vi que se contorsiam na tentativa de se distanciarem de mim, charmosamente fofocando na sua língua ancestral. Foi então que a música que me consolava passou também a me ignorar e todos conversavam na sua festa social na qual não fui convidado. Eu pegava emprestada a diversão da natureza, mas a minha presença não alegrava ninguém.
Tudo se conversa, todos se entendem. Pouco importa na festa da vida que o homem não sai do canto, pois prefere ficar ali com sua cerveja a ensaiar xavecos mentirosos para desesperadamente provar sua superioridade. A cadeira dançando polca com a mesa e as estrelas invejando a lâmpada que muito se apaixonou pelas mariposas. Grama brincando de telefone sem fio, até porque a comunicação das gramíneas é péssima, então, sempre têm de passar recados.
Foi então que o som se transformou em um ruído de interferência imediata no som da caixa terrestre que movia todos os planetas com bossa velha. É grosseiro e funcional, não tem violão e nem cantor mas faz todo mundo dançar.
Já o homem prefere música clássica.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Filosofia do vazio

Quantos barulhos vêm desavisados? Quantas pessoas que passam ao meu lado ainda hei de encostar? Aqui está o mundo à minha volta, grande esfera inacessível que não revela seus segredos, por sorte ou azar.
Agora, desde já, renuncio seus prazeres provocativos que, antes, me causavam tanto anseio. Ao invés de todo esse imaginar conhecer que manuseio, procuro gozar da ironia de sobreviver com menor conhecimento dos pequenos fatos-fardos. Esses que guardam a ilusão da criação. Não temos informação, é só permissão. Essa sim, só ela cumpre toda a sua função e se encontra presente inevitavelmente no pulsar do meu baião. Lá de dentro de mim o meu mundo é tão descarado que não tem forma e nem um porque da própria existência. É recente, crescente, é essência?
Quem sacode a escala Richter? Quantos pontos eu sou no plano cartesiano? Fique anunciado aqui, por minha parte (pequena), que ainda não se tem uma maneira científica, utópicamente magnífica de medir o tamanho de um homem, até porque, não passamos de bolhas de sabão. Enormes bolhas com indiferença tão igual, respirando e inspirando seu reflexo. Simples ou complexo ele bóia perplexo nesse manto fino que te faz um globo-balão.
Ora, acanhar-se com licença ou sem tom não é, porém, nada bom. Meça bem o seu tamanho, seu dom. Estufa a película dura e empanturra a gula bruta que assim padece, no fim acaba que agradece pelo reflexo de outra bolha padrão. Proponho humildemente um desafio. Peço que separes o dentro do fora e procure me afirmar o que de fato importa, se o ar que ta dentro é o mesmo que ta fora. Vá nos cadernos e na bíblia, busca nos jornais o seu saber, mas não esquece disso tudo que, se porventura algo se demonstre maciço, grande o bastante para explicar tudo isso, no fundo só temos o processo de viver. Na pele, a separação do vazio do mundo de outro vazio tão grande que é o ser.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
A maior das pausas
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Intranet
DosaDor
Sentir sempre a cabeça na minha mão, e sem grandes perdas! Eu quero umas gotas apenas! Sem dormir ou pairar seguro. Segurança no caos! Segurança viva eu quero. Me de a dor para que eu morra aos poucos sem me afogar na vida, sentindo o desgaste na medida.
Essa tristeza eu suponho como viva, e como vida. É lindo e interno. Para mim a vida é interna e o mundo me da repertório para o interno. Me trago nadando comigo no mar do mundo sentimental. Queria uma bóia, sem deixar de me molhar! Me de um pouco dessa droga aí, que eu gosto, mas me segura para eu não me afogar, pelo amor de deus.
Edredom
Levo do seu calor o cerne do meu dia
Caliente a minha flor da alegria
Em sussurante som eu lanço o tom
Da sinfonia preguiça de pétala lisa
Levo leve a poesia
No tempo corrido depois que o galo assovia


