Incomodo-me de escrever às vezes, porque nessas horas a janela aqui do quarto muda totalmente de paisagem. É só pegar nas palavras que minha casa descola imediatamente do chão e fico à mercê do rumo que ela decidir, e o pé nem sente a jornada. É só a casa mesmo que se mexe, pois nessa hora eu me agarro na mesa e respiro fundo. No começo me deixava levar pelo medo e, então, as palavras sumiam do contexto fazendo cessar de uma vez o tremor. A situação evoluiu de forma silenciosa, e hoje creio que o silêncio facilita a fala, sendo assim, fico imóvel sem ranger a cadeira que é para ver se compenso o transtorno do recinto.
Algumas vezes é totalmente inocente. Eu começo a pensar em palavras e a rota já está traçada. Entra barata e peixe pela fechadura, jorra água duvidosa da lâmpada de leitura que nem precisa estar acesa porque na janela pisca uma aurora boreal que sempre me deixa pasmo. Verdes, marrons e quase azuis lindos piscando convulsivamente com o bater das persianas. Atrevido, às vezes chego a espiar lá fora com uma curiosidade muito intensa, mas que inevitavelmente dura pouco, pois termino por encontrar sempre a mesma coisa.
No começo só existe luzes mas termino por identificar, iluminado por três sóis se pondo simultâneamente, um parquinho de crianças. Lá têm bichos de pelúcia que brincam de brincar, fingindo que são inocentes e cantando e dançando as músicas de suas infâncias, mas há muito perderam a alegria infantil. São de pelúcia velha bem marcada com manchas de saliva. Minha saliva. É como se me olhassem com meus próprios olhos e pegassem emprestados minhas pernas e braços para me fazerem dançar também. Proponho-me a olhar de início, mas quando dou por mim já soltei das palavras e abraço esse conforto que, apesar de pequeno, é suficiente para me levar aonde quer que meu quarto voe.
Esse aconchego me leva então do quarto com seus animaizinhos de mentira e tantos cobertores. Tiro meus sapatos, me deito... completo.
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